O MUZEU ocupa o antigo Tribunal Judicial de Braga, um imóvel histórico no centro da cidade que foi profundamente reabilitado pelo arquiteto bracarense Carvalho Araújo. O novo espaço resulta de um investimento de cerca de 40 milhões de euros do dstgroup.
Entre a Praça do Município e a Praça Conde de Agrolongo, há um novo edifício que pretende mexer com a cidade. O MUZEU — Pensamento e Arte Contemporânea dst abriu este sábado, 25 de abril, e não nasce apenas para expor obras nas paredes. Quer ser uma praça, uma ágora, um lugar de encontro onde a arte contemporânea serve de ponto de partida para discutir política, liberdade, memória, direitos e futuro.
O nome já dá uma pista. A grafia foge ao habitual, tal como o próprio projeto. Trata-se de um organismo vivo, com programação contínua, ligação à cidade e uma posição assumida sobre o papel da cultura na vida pública. Instalado no centro histórico, o novo espaço resulta de um investimento de cerca de 40 milhões de euros do dstgroup e ocupa um edifício de cinco andares, com quatro pisos expositivos, um auditório e cerca de três mil metros quadrados dedicados à arte e ao pensamento.
A abertura aconteceu numa data carregada de simbolismo. O MUZEU foi inaugurado no feriado do 25 de Abril e esse gesto não é decorativo. O primeiro ciclo de programação chama-se precisamente “Abrir Abril” e prolonga-se de 23 de abril a 31 de outubro deste ano. A ideia é olhar para a revolução como um momento de rutura e transformação coletiva, mas também como uma pergunta lançada ao presente. Foi essa linha de pensamento que serviu de base ao programa inaugural e à primeira grande exposição do espaço.
A diretora, curadora e programadora artística Helena Mendes Pereira resume: “A missão deste projeto, o Museu Pensamento e Arte Contemporânea, é a partir da arte contemporânea, haver claramente aqui um conjunto de propostas que tenham como objetivo a promoção do pensamento crítico e do ativismo social”.
A responsável explica que há também uma intenção clara de “influenciar quem elege”, para o País e o mundo continuarem a fazer escolhas “no sentido da democracia e da manutenção de direitos, liberdades e garantias”.
Essa formulação ajuda a perceber que o MUZEU não quer ser apenas um novo equipamento cultural em Braga. Quer assumir-se como um espaço de intervenção e não apenas de contemplação. Helena Mendes Pereira, que já dirigia a ZET galeria de arte e gere a coleção do dstgroup, diz que encara o seu papel a partir de uma ideia de escuta. Em vez de impor uma visão fechada de curadoria, quer construir um modelo mais aberto, que concilie a visão do colecionador e mentor do projeto, os valores da empresa, os contributos de artistas e agentes culturais e também a participação da comunidade.
Por trás do projeto está o dstgroup, grupo empresarial bracarense com atividade em áreas como construção, engenharia, infraestruturas, energia, telecomunicações e inovação, mas que há muito investe também em cultura, educação e responsabilidade social. O MUZEU é apresentado como a voz pública desse compromisso continuado. A empresa foi construindo, em paralelo com a sua atividade industrial, um programa sustentado de mecenato cultural, apoiando criação artística, formando coleções e criando plataformas de debate. Entre essas iniciativas estão a ZET galeria de arte e agora este novo museu, que dá escala pública a uma visão que já vinha sendo trabalhada há anos.
No centro dessa história está José Teixeira, empresário natural de Braga, engenheiro civil e presidente do conselho de administração do grupo. Foi ele quem, ao longo das últimas quatro décadas, construiu uma coleção privada de arte contemporânea que hoje soma mais de 1.500 obras de 240 artistas nacionais e internacionais. Trata-se de uma das coleções privadas mais significativas do País e inclui nomes como Pablo Picasso, Paula Rego, Helena Almeida, Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Nan Goldin, Richard Long, Candida Höfer, André Butzer e Anselm Kiefer, entre muitos outros. A coleção foi crescendo ao longo dos anos, mas o MUZEU marca o momento em que esse património deixa de viver apenas no universo do colecionismo e passa a ser organizado como projeto público e programático.
José Teixeira tem insistido que este investimento deve ser lido como uma aposta na formação, no conhecimento, na ciência e na cultura. “O início é a formação, o início é a cultura”, afirmou na apresentação do museu. O responsável acrescentou que o MUZEU é mais um passo na construção do chamado “efeito dst”, resumido numa frase simples: “há um poder transformador a partir da cultura”.
O próprio conceito do MUZEU nasce desse cruzamento entre arte, formação e vida cívica. A ambição não é apenas mostrar obras de artistas relevantes, mas criar programas curatoriais originais, capazes de ligar arte contemporânea, filosofia e experiência individual de quem visita o espaço. A coleção serve de base, mas o museu quer produzir pensamento a partir dela. Quer também servir os cerca de três mil trabalhadores do dstgroup, oferecendo oportunidades de requalificação em áreas ligadas à museologia, mediação, conservação, gestão de coleções e participação em programas específicos. Ou seja, o museu não é apresentado apenas como equipamento para turistas, escolas ou público especializado, mas também como espaço que dialoga com a própria comunidade laboral que lhe deu origem.
O MUZEU ocupa o antigo Tribunal Judicial de Braga, um imóvel histórico no centro da cidade que foi profundamente reabilitado pelo arquiteto bracarense Carvalho Araújo, colaborador de longa data do dstgroup. O edifício transformou-se num museu de cinco andares com quatro pisos de exposição e um auditório, mas preservou elementos patrimoniais importantes, como as duas fachadas históricas. No interior coexistem agora materiais e soluções contemporâneas com vestígios da história urbana de Braga, incluindo a mais antiga secção da muralha da cidade, iniciada no século XIV, e um poço do mesmo período. Na fachada principal, virada para a Praça do Município, foi instalada uma intervenção escultórica permanente de José Pedro Croft, reforçando a ligação entre arquitetura, coleção e espaço público.
Helena Mendes Pereira sublinha precisamente esse encontro entre tempos como uma das valências mais fortes do projeto. Mais do que o facto de o edifício ter funcionado como tribunal, interessa-lhe a circunstância de ali se cruzarem várias camadas da história da cidade: um edifício original do século XVIII, associado a Carlos Amarante, a preservação de elementos medievais e uma nova intervenção assinada por outro arquiteto bracarense, Carvalho Araújo. No interior, a lógica é outra: o espaço foi reconfigurado para responder às necessidades expositivas e programáticas do museu, sem apagar a memória do lugar.
É aí que entra a primeira grande mostra do MUZEU, “Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível”, a exposição inaugural do espaço. O título recupera uma frase associada aos protestos estudantis de Paris, em 1968, e serve de porta de entrada para um conjunto de obras que refletem sobre memória, poder, identidade, trabalho, resistência e liberdade.
A mostra ocupa quatro pisos expositivos, soma mais de cem obras de 96 artistas — 40 portugueses e 56 internacionais — e ficará patente até 23 de outubro de 2027. A curadoria é assinada por Helena Mendes Pereira e assume a arte contemporânea como ferramenta de transformação social, política e poética.
Entre os artistas presentes estão nomes como Alex Katz, Ana Vidigal, Ângela Ferreira, Annie Leibovitz, Artur Lescher, Axel Hütte, Délio Jasse, Eduardo Batarda ou Fernão Cruz. A exposição dá particular destaque a Miguel Rio Branco e Rui Chafes, artistas cujas práticas intensificam a tensão entre transgressão, contenção poética e confronto com o real.
Há ainda outro núcleo com peso próprio: um espaço permanente dedicado a Anselm Kiefer, uma das figuras mais importantes da arte contemporânea internacional e presença central na coleção de José Teixeira. O trabalho do artista alemão, conhecido por confrontar a história, a responsabilidade ética, a memória e a persistência do passado no presente, ganha aqui uma morada fixa. Esse núcleo reforça a dimensão ambiciosa do projeto e a intenção de posicionar Braga num mapa mais alargado da arte contemporânea.
Além desta exposição de longa duração, o espaço terá um programa paralelo extenso, pensado para convocar “outras tribos”. Se a arte contemporânea, sozinha, não chegar para trazer todos ao museu, entram em cena a música, a dança, o pensamento, os políticos, as escolas, os pais e as famílias. A imagem é clara: trata-se de um museu que se quer sempre em movimento, com múltiplos gatilhos para que diferentes públicos tenham razões para entrar.
É por isso que o ciclo inaugural “Abrir Abril” mistura linguagens e formatos. No sábado, 25 de abril, entre as 11 e as 19 horas, o público pode visitar gratuitamente a exposição inaugural “Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível” e o núcleo dedicado a Anselm Kiefer. No mesmo dia decorre também, na Praça do Município, a performance “Manifestação Poética”, assinada pela Oficina Arara e Dr. Urânio, uma ação pensada para todos os públicos, baseada em escrita, desenho, pintura, palavras de ordem e referências a lutas sociais e ideais de liberdade.
Depois da inauguração, o museu abrirá de terça-feira a domingo, das 11 às 17 horas. Os bilhetes custam 10€ para adultos e 5€ para seniores e estudantes. A entrada é gratuita para miúdos até aos 12 anos e para visitas escolares. Professores, artistas, profissionais da cultura e colaboradores do dstgroup terão acesso gratuito todos os dias. Às quintas-feiras, o MUZEU fica aberto até às 23 horas e a entrada é gratuita durante todo o dia, numa iniciativa inspirada no poema “Venha à Quinta-feira”, de Filipa Leal.
Créditos fotografia: © Hugo Delgado (visto em Renascença)